domingo, 31 de março de 2013

Os Ramalhos (e os primeiros Amarais)

Escrever sobre uma família se torna uma tarefa árdua, quando se pensa apenas nas longas e antigas linhagens (e entediantes, porque não? :P) que iniciam com alguém que fundou a família.
Então como poderei começar esse parágrafo sem ser assim? (Sendo que possivelmente posso não descender desta? Mas se for, seria uma honra e tanto)
Antes de começar a redigir, gostaria de deixar claro que descreverei 'vagamente' esta família para então 'fundamentar' minhas teorias.
Em pesquisas pela internet, achei um artigo de Djamira Sá Almeida no site WebArtigos (http://bit.ly/1CZPSc3), um artigo no site da Unesp de autoria de Pablo Nogueira (http://bit.ly/aVUarK) e também o site de biografias Vidas Lusófonas (http://bit.ly/1H1BhDz).  Estas fontes descrevem as origens desta família como que sendo um tanto enigmáticas aqui em nossas terras.
Um breve resumo sobre o fundador desta antiga família brasileira: o português João Ramalho (1493-1580), era filho de João Velho Maldonado e Catarina Afonso de Balbode. João já fora casado com Catarina Fernandes das Vacas (isso em 1510), chegou no Brasil, antes de 1513. Fundou a povoação do que viria ser a Vila de Santo André da Borda do Campo em 1553
Figura histórica, descrito por escritores, cronistas, inclusive em cartas de jesuítas. O que poucos sabem (ou ignoram) é que muitos de seus descendentes se casaram com parte da futura nobreza paulistana que fez parte das bandeiras. 
Para começar, ninguém sabe ao certo como ele veio parar aqui nas terras descritas pelo renomado escritor brasileiro Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) na poesia Canção do Exílio. 
Voltando ao assunto, o Rei D. João III de Portugal estimava tanto o nobre D. Martim Afonso de Sousa, que o enviou para as distantes terras do Brasil para que lá se fizesse implantar o bem-sucedido sistema de capitanias hereditárias
D. Martim navegou ao longo de todo o litoral brasileiro até a foz do rio da Prata, onde sobreviveu a um naufrágio, como desdobramento de sua missão, retornou à região do que viria a ser a Capitania de São Vicente aos Vinte e Um de Janeiro de 1532, quando teve uma surpresa! Ao desembarcar imaginara encontrar indígenas ariscos, mas avistou um homem branco vivendo no meio deles de forma pacífica, era João Ramalho, que posteriormente recebeu do nobre, o título de Alcaide-Mór e Guarda-Mór de Santo André da Borda do Campo de Piratininga.
Apesar do português ter explicado pro nobre lusitano as circunstâncias que o trouxeram aqui, estas infelizmente não foram registradas pela história, então os historiadores sugerem duas plausíveis teorias:
  1. Ou o navio em que ele estava naufragou; 
  2. Ou ele foi degredado;
Bem, há quem defenda que o náufrago português era marrano (nome dado aos judeus convertidos ao Cristianismo que viviam em Portugal), isso é o que prova o escritor Henrique Veltman, autor da obra Os Hebraicos da Amazônia (http://bit.ly/2x9Di0L), na qual relata que Horácio de Carvalho, jornalista e diretor do Diário Oficial do Estado de São Paulo, sempre dizia isso a respeito de João Ramalho: “sim, é judeu”. O sinal encontrado na assinatura do velho paulista nada mais seria do que um káf, letra do alfabeto hebraico. O geógrafo Teodoro Sampaio concorda com a tese. Isso sustenta as teorias 1 e 2. 
Sendo ele degredado, ou seja, aprontou algo, portanto receberia como punição o desterro num lugar considerado inóspito (o Brasil Pré-Colonial que ainda era 'inabitado', desconhecido e misterioso pelo Velho Mundo). Vamos imaginar um pouco? E se o motivo fosse o fato de ser judeu? No período em que viveu em Portugal, os marranos eram vistos com maus olhos...
Ou como Pablo sugere: talvez ele não tivesse aprontado nada e fosse apenas um judeu pobre tentando sobreviver numa sociedade que detestava judeus, até mesmo aqueles que renegavam o judaísmo. Num gesto de desespero ou de astúcia, ele saiu da Europa em busca de um lugar melhor.
O oceano Atlântico é conhecido desde a Idade Média como o Mar Tenebroso já que suas águas são as mais agitadas se comparadas com os outros conhecidos naquela época. (Pense nisso!)
Retomando, João Ramalho aqui chegando deve ter chamado a atenção por ser tão diferente, e quem sabe ter sido considerado um deus. Sendo assim, o cacique Tibiriçá, chefe da tribo dos Guaianases na colina Inhapuambuçu para agradar o 'deus', ofereceu sua filha Potira (cujo nome significa flor), conhecida como Bartira pelos portugueses. Os dois tiveram o casamento realizado pelo Padre Manuel da Nóbrega (1517-1570), e a bela jovem foi (re)batizada como Isabel Dias. Do matrimônio nasceram oito filhos de acordo com o testamento do próprio João Ramalho, comentado na versão online de "Genealogia Paulistana" de Luiz Gonzaga da Silva Leme (http://bit.ly/1BtluY5) + (http://bit.ly/15FJmw5): 
  1. André Ramalho, o mais velho;
  2. Joanna Ramalho, foi casada com o português Jorge Ferreira, Cavaleiro Fidalgo da Casa Real, que em terras brasileiras ganhou o título de Capitão-Mór da Capitania de Santo Amaro (depois Capitão-Mór e Ouvidor da Capitania de São Vicente em 1566) (com descendência).
  3. Margarida Ramalho;
  4. Victorio Ramalho (ás vezes grafado como Victorino), foi assassinado pelos índios;
  5. Antônio de Macedo;
  6. Marcos Ramalho;
  7. João Ramalho (ás vezes grafado como Jordão);
  8. Antônia Quaresma;  ____________________________________________________________________
  9. Catharina Ramalho, foi casada com o português Bartholomeu Camacho (com descendência);
  10. Beatriz Ramalho, foi casada com o português Lopo Dias, de quem foi a primeira mulher (com descendência);
Catharina e Beatriz podem ter sido frutos da união de João com alguma irmã de Potira, de qualquer forma devido a escassez de documentos é impreciso afirmar algo.
Intrigante são os sobrenomes diferentes dos seus filhos Antônio e Antônia, que em nada lembram o de seu progenitor.
Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala explica que, o homem português (dos tempos antigos) é um apreciador nato da pele morena, e a seguinte citação reafirma isso: "As índias nuas do Brasil lembravam  aos portuguêses a figura da moura encantada, tipo delicioso de mulher morena de olhos pretos que lhes ficou no subconsciente do longo contato que êles tiveram com os mouros". E isso faz sentido, pois o povo mouro ocupou a península ibérica por muitos séculos.
E aqueles que pertenceram as antigas nações indígenas, devido a sua inocência (se comparadas com outros povos) andavam despidos ou seminus e isso era facilitado (me refiro ao relacionamento sexual entre europeus e povos nativos do Brasil), já que "os índios não se agastavam com o fato de sua companheira tomar outro homem" (Gilberto Freyre). 
Percebendo os costumes dos nativos e não havendo resistência, teve muito provavelmente vários filhos ilegítimos já que queria agradar aos demais caciques e estabelecer vínculos, ao receber (coabitar com) suas filhas. Muitos de seus filhos talvez sejam desconhecidos para a história brasileira, já que não havia o controle sobre os registros históricos no que viria a ser um dia uma grande nação.
O pirata Ulrich Schimedel em 1553, ao passar por Santo André, conta que achou João Ramalho no sertão, escravizando índios. Se você parar pra pensar, o tráfico de escravos foi por ele inaugurado, e foi ele quem fez a Vila de São Vicente ser conhecida como um Porto dos Escravos, e fez de São Paulo, uma das cidades mais importantes do sul do Brasil. 
O Padre Manuel Nóbrega em suas cartas escrevia que a vida de Ramalho era uma verdadeira "petra scandali", pois tem muitas mulheres, e tanto ele como os seus filhos andam com as irmãs (de suas esposas) e tem filhos delas. Vão à guerra com os índios e seus gestos são de índios e assim vivem, andando nus como os mesmos índios. Posteriormente, o Padre Nóbrega mudou de opinião, pois seguiu o ditado latino "Si fueris Romae, Romano vivito more" (Em Roma, sê romano).
Para não alongar muito o texto, esta é apenas uma parte da história desta família.

P.S.: Há uma curiosidade que merece ser destacada: o sobrenome de João é Maldonado, por causa de seu pai. Mas, devido a barba espessa e longa que possuía, João ganhou a alcunha de Ramalho,que se tornou o seu sobrenome e o de sua prole.
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Suposições

Estas hipóteses são baseadas apenas na minha intuição e no meu faro genealógico, são algumas peças soltas na minha árvore genealógica;

1. Clara de Arão Amaral Molete (aprox. 1604-?), casada com o português Prudêncio Ramalho (?-1653), filho de João Vaz Ramalho e Apolônia Alves, com descendência:
1.1. João Ramalho (1619-?).
1.2. Francisco Ramalho (1620-?).
1.3. Baltazar Ramalho (1622-1653).
1.4. Prudêncio Ramalho (1624-1660).
1.5. Bartolomeu Ramalho (1628-?).
1.6. João Ramalho (1630-?).
1.7. Marta Ramalho (1634- ?).

O que me intriga é o fato de Prudêncio (de ascendência portuguesa) ter vindo para a mesma região onde os Ramalhos já eram uma poderosa família. Seria um encontro de família? Lembre-se que a origem de João Ramalho é um tanto misteriosa e que ele era português.

2. Maria do Amaral Gurgel (1607-1671), foi casada em primeiras núpcias com Antônio Ramalho (1591-1631), filho de Francisco Ramalho e Maria Mendes, com descendência (já citada).

Nenhum historiador/genealogista cita as origens do primeiro marido de Maria, portanto ele pode ser um provável descendente de João Ramalho. E famílias poderosas não firmavam casamentos e sim alianças (políticas) por meio dos matrimônios. Cito esse famoso dito germânico: Bella gerant alii; tu, felix Austria, nube ["que outros guerreiem (enquanto) tu, feliz Áustria, concluis casamentos"]. A propósito essa filha de Domingas (espero que isso fique claro) é constantemente confundida como que sendo matriarca da descendência de uma de suas primas, a Clara (citada acima), quando na verdade não é.

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João Ramalho por Jayme Leão (1952)

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