domingo, 10 de março de 2013

Toussaint G(r)ügel

Aquele que é considerado o pai de uma das mais antigas famílias brasileiras (com ramificações em outros países), veio outra vez para a "Terra dos Papagaios" no ano de 1565, capitaneando duas naus que saíram de Saint Malo, Bretagne, France com destino a Vila de Cabo Frio, Rio de Janeiro, Brasil.
Duas motivações para realização de tal viagem são conhecidas, segundo esse artigo do portal Info Escola (http://bit.ly/1CUTqz0), sendo:
  1. O contrabando de madeira de lei, principalmente o pau-brasil (Caesalpinia echinata), uma árvore que nos dias de hoje, está quase extinta já que durante o Brasil Colonial era caçada de forma predatória, devido a extração de uma resina do seu tronco de cor escarlate para tingir tecidos. Sem contar que, os móveis esculpidos desta madeira eram considerados um artigo de luxo na época (devido a coloração vermelha e a durabilidade). 
  2. Apoio militar para a (re)fundação da França Antártica (1555-1560), um sonho fracassado de Nicolas Duran de Villegaignon, Jean Calvin, Gaspard de Coligny, Guillaume Le Testu e do Roi Henri II de France.
No entanto, ao aportar em Cabo Frio, encontrou a vila em pé de guerra. Forças enviadas sob o comando do Coronel João Pereira de Souza Botafogo a mando do então Governador da Capitania Real do Rio de Janeiro, D. Salvador Correia de Sá, guerreavam com os franceses remanescentes e seus aliados, os tamoios (uma nação tupi). Estas tropas tinham o intuito de desalojar de vez os resquícios do que fugiu da extinta e destruída Henriville. A missão fluminense foi bem sucedida, já que os rebeldes foram detidos e aprisionados.
Dentre eles, o corsário Toussaint Grügel, que declarou em cárcere após entregar a sua espada:
  • Ser natural de Le Havre de Grâce, Haute-Normandie, France. 
  • Ser filho de mãe francesa da Alsace, France e pai alemão da Bayern, Deutschland.
  • Ter estudado no Liceu de Strasbourg, Alsase, France.
  • Ter cursado Hidrografia e Ciências Náuticas na cidade Saint Malo, pertencente ao departamento Ille-et-Vilaine, situado na Bretagne, France.
Por ter lutado com bravura, mesmo com um número bem inferior de homens e armas, esse valente aventureiro francês acabou conquistando a admiração e simpatia do Coronel Botafogo, que logo se afeiçoou por ele "por ser pessoa de trato e cabedal" e "cabo de tôda a armada inimiga"  (Códice LXXVIII, Vol. 12 - Arquivo Nacional). O que lhe rendeu a permanência na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (ele não esqueceu dos seus, todos os seus companheiros de batalha foram libertos, porém não puderam permanecer em solo tupiniquim).
Vale mencionar que este coronel desfrutava de grande consideração perante o Governador Salvador Correia de Sá.
Tendo caído nas graças do seu captor e da sociedade local, Toussaint enriqueceu com a dedicação à pesca da baleia "frequentes na Guanabara,  maximé nos meses frios" (Aparência do Rio de Janeiro de Gastão Cruls) e do seu aproveitamento industrial (o azeite, as barbatanas e a gordura eram exportados para o Reino de Portugal por um bom preço), porque tinha um contrato assinado com o governo da Capitania Real do Rio de Janeiro.
Era já um homem com cerca de 27 anos quando chegou a capital fluminense (antigo gentílico de carioca). Sendo alto, esguio, alourado, tendo olhos azuis, inteligente, bom causeur, "verdadeiro fidalgo no trato e no espírito" (Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro de José Vieira Fazenda, disponível em http://bit.ly/2xPP11A). Trajava-se com apuro, não dispensando de portar cruzada nas costas, a espada de lâmina afiada com os copos no lado direito e a ponta transparecendo na extremidade da capa, elegantemente dobrada ao ombro esquerdo.
Em pouco tempo, o nobre francês desposou a mão de Domingas de Arão Amaral, afilhada do Coronel Botafogo, filha de um casal lusitano de boa linhagem.
Em Janeiro de 1598, o casamento entre uma jovem fluminense e um 'viajante' francês originou uma das mais importantes famílias que povoaram o que viria a ser o atual estado do Rio de Janeiro, conforme consta da publicação de “O Globo”, de 6 a 27 de julho de 1965, de autoria do brilhante genealogista brasileiro Carlos Grandmasson Rheingantz. 
Desta união, nasce e posteriormente através de seus descendentes, a família Gurgel do Amaral ou Amaral Gurgel.  O casal teve sete filhos, sendo seis filhas e um varão, todos nascidos e registrados entre 1607 e 1622, na antiga Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga (que desabou em 1761 devido ao estado precário da estrutura).
Grügel, acostumado a vida agitada dos mares e de sua pátria, por mais que se dedicasse à pesca, não se conformava em ficar sempre na mesmice da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro da primeira metade do século XVI. Inquietado, passou a cultivar outra paixão, a caça. Tanto é que viajava para o interior na companhia de amigos, escravos e índios mansos e por lá ficava por semanas seguidas, deixando aflitos os seus familiares. Mas foi com a sua morte que tais razões foram decifradas. Uma prova disso, são os seus 41 filhos ilegítimos com traços tamoios tidos em suas aventuras de além da Lagoa de Santo Antônio que derramavam lágrimas por ele no ano 1631.

P.S.: Esse texto foi alterado num momento futuro para correção de informações.  



Baseado em pesquisas e na obra de Heitor Gurgel, autor de Uma Família Carioca do Século XVI.

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