sábado, 30 de março de 2013

Os clãs brasileiros

A família era tudo, nada menos. Seguindo a tradição da época em que os portugueses se instalaram no Brasil, a família não se compunha apenas apenas de marido, mulher e filhos. Era um verdadeiro clã, incluindo esposa, eventuais (e disfarçadas) concubinas, filhos, parentes, padrinhos, afilhados, amigos, dependentes e ex-escravos. Uma imensa legião de agregados submetidos à autoridade indiscutível que emanava da temida e venerada figura do patriarca. Temida, porque possuía o direito de controlar a vida e as propriedades de sua mulher e filhos; venerada, porque o patriarca encarnava, no coração e na mente de seus comandados, todas as virtudes e qualidade possíveis a um ser humano.
[...] E quem era esse patriarca orgulhoso, a quem se submetiam tudo e todos? Era o grande senhor rural, proprietário de terras incomensuráveis, onde se plantavam as bases da economia brasileira: café, cacau, cana-de-açúcar e outras grandes lavouras. Era ele que desde os tempos coloniais e imperiais presidia a única ordem perfeita e íntegra da sociedade brasileira: a organização familiar. Não havia comunidades sólidas, sindicatos, clubes ou outros órgãos que congregassem pessoas de interesses similares (com exceção, das igrejas/paróquias e as câmaras políticas); A família, a grande família patriarcal, ocupava todos esses espaços. E o que não fosse provido por ela representava um corpo estranho e indesejável. O próprio Estado, que enquanto ordem pública deveria estar acima das questões familiares, esbarrava nestas quando necessitava intervir. Mas os governantes sabiam que essa família exclusivista, dobrada sobre si mesma e solidamente organizada, era, por sua vez o sustentáculo do Estado, pois impedia que a população, tão escassa e quase nômade, se pulverizasse neste imenso país.
(...). A unidade da família devia ser preservada a todo custo, e, por isso, eram comuns os casamentos entre parentes. A fortuna do clã e suas propriedades se mantinham assim indivisíveis sob a chefia do patriarca.
[...] Até mesmo as linhas de parentesco, tão caras à sociedade patriarcal, só se tornavam "efetivas" quando provinham do homem. Desse modo, a mulher perdia a consanguinidade de sua própria família de origem, para adotar a do esposo. Isso quando a família da mulher não era mais importante e tradicional. Ás vezes ocorriam sucessivos casamentos entre membros de diferentes famílias, o que acabava por fundi-las. Mas com a chegada da República, o mundo da casa-grande e da senzala iria esboroar-se, tempos esses em que o progresso tirava o longo sono colonial. (...) Acompanhando o crescimento das cidades e a chegada da nova era, uma parte das velhas famílias patriarcais abandonam a vida do campo e migram para as grandes cidades.
(...) Pouco a pouco, o patriarca é obrigado a se relacionar com os outrora indesejáveis elementos "de fora". Os filhos serão matriculados em escolas para que no futuro não se furtem do título de ser 'doutor'. Um dia, torna-se mais conveniente que o primogênito se case, não mais com aquela obscura priminha remediada, mas com a filha de um riquíssimo banqueiro da capital. Essas chamadas razões do coração respondiam bem aos interesses da família. Tanto a aristocracia da terra como as novas elites emergentes procuravam circunscrever os casamentos de seus filhos e filhas nos estreitos limites de sua própria camada social.
Eles próprios são forçados a ampliar seus negócios nos centros urbanos, para que o patrimônio não sucumba à nova maré do progresso. Eles passam a aplicar dinheiro em outras atividades, além da fazenda.

Trechos retirados do livro, Nosso Século 1900/10, Volume 1 da Editora Abril.

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