Devido a ambição dos que iam para os Cataguás em busca de ouro, os conflitos passaram a ser resolvidos da forma mais cruel possível: M-O-R-T-E!!!
André João Antonil inclusive se refere aos planaltinos daquele tempo como "gente rústica, desconfiada, muito sensível e acostumada à guerra, faziam pouco escrúpulo de tirar a vida a qualquer qualidade de pessoas, não só a mando de seus amos, mas também por leves agravos e alguns só presumidos."
Houve momentos de tal contexto histórico, em que os paulistas chegaram a não mais entrar em capela onde oficiasse sacerdote reinol, ou ainda, que paulistas passaram a dar o mesmo tratamento de desprezo dispensado aos escravos e candangos para os lusos.
Diogo Vasconcelos comenta que a guerra começou pelo seguinte fútil e ridículo motivo: "- Um paulista havia emprestado uma escopeta a um português muito pobre. Tendo-se perdido ou extraviado a arma, o plebeu procurou o piratiningano sem mais delongas, ofertando-lhe sete oitavas de ouro pela espingarda, que, aliás, era o que havia custado. O filho do Planalto, alegando não ser negociante, exigiu a imediata devolução da escopeta."
Tudo indica que o luso emboaba se sentiu em apuros, e por esse motivo "buscou remédio para seu mal na valiosa proteção de Nunes Viana, então no fastígio" e o mesmo ocorreu com o paulista que "foi à casa do potentado Jerônimo Pedroso de Barros que, como bom paulista que se prezava de ser, não ia à missa dos lusitanos e, desde logo, se pôs à disposição do conterrâneo. Querendo remediar a situação, Nunes Viana procurou o dono da espingarda que se encontrava com amigos no adro da capela do Caeté e pediu-lhe que aceitasse as sete oitavas de ouro pela escopeta perdida. O piratiningano recusou a propositura. Viana, então, pediu-lhe que fôsse à casa dêle e lá entre as 80 espingardas que possuia, escolhesse a que aprouvesse" (S. Suannes).
O portal Mega Curioso comenta algumas expressões latinas, entre elas há uma que se encaixa perfeitamente nessa situação, a qual irei transcrever para cá (se você estiver curioso com as demais, basta acessar em > http://bit.ly/2jtpSTF): Eis um provérbio que era bastante popular na Roma Antiga. A expressão 'auribus teneo lupum' era usada quando a situação era insustentável, e particularmente quando fazer nada ou fazer alguma coisa para resolver um problema era igualmente arriscado. Bizarro, né? Ao pé da letra, (...) significa 'segurando um lobo pelas orelhas'.
Retomando a linha de raciocínio, a Guerra dos Emboabas era uma tragédia anunciada. Muito provavelmente, os dois líderes: Jerônimo Pedroso de Barros (dos paulistas) e Manuel Nunes Viana (dos emboabas), começaram uma sessão de argumentos de defesa e acusação como se estivessem em um comício ou tribunal, até chegarem ao ponto de os nervos chegarem a flor da pele e trocarem desaforos pessoais.
E Heitor Gurgel comenta com riqueza de detalhes o surgimento de tal guerra na seguinte passagem:
"Surgiram então os disse-me-disse, os fuxicos, os boatos e, em pouco, paulistas e emboabas estavam em pé de guerra. E foi à-toa que Borba Gato foi ao Caeté para apaziguar os animos. Dias depois, os paulistas mataram dois escravos de Nunes Viana e depredaram propriedades dos mesmos. Em represália, Nunes Viana e sua gente tiraram a forra, pondo fogo em plantações e nas catas dos paulistas. Era a guerra."
E dessa guerra, o episódio mais sangrento foi o Capão da Traição, que possui tal denominação devido a forma do relevo, cuja aparência é de uma região mais baixa com outras mais altas ao redor, assim bem explicou um dos usuários do site de perguntas Brainly (http://bit.ly/2jnPUdk).
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Depois de toda essa explicação para contextualizar quem lê, por fim serão feitos comentários da relação desse conflito com os Gurgéis e os Amarais.
Heitor Gurgel relata que apesar de haver uma figura de autoridade local, isso era insuficiente. Vale mencionar que foi criado o cargo de Capitão-Mór Regente das Minas Gerais de Ouro Preto, para o qual foi designado o Coronel Francisco do Amaral Gurgel. E isso foi justificado devido ao cenário de conflito de interesses por causa: da cobiça pelo ouro, da fome e da dificuldade de se obter gêneros alimentícios.
André João Antonil inclusive reforça isso na seguinte passagem: "os que iam às Minas tirar ouro dos ribeiros ou por meio de expedientes vários, usavam de tradições lamentáveis e de mortes as mais cruéis, ficando não raro, essas mortes impunes, porquanto nas Minas, a justiça humana não teve ainda tribunal, nem respeito." (...) "nas minas apenas se guardam algumas leis, que pertencem às datas e às repartições dos ribeiros. No mais, não há Ministros, nem Justiças que tratem ou possam tratar dos castigos dos crimes que não são poucos, principalmente dos homicídios e furtos."
O Capão da Traição é um triste episódio dessa guerra. Em poucas palavras, está relacionado ao Capitão-Mór Bento do Amaral Coutinho (1683-1711) que traiu 300 paulistas (a grande maioria eram índios), após os enganar, encurralar e matar.
(¡jajaja! > isso é uma risada em espanhol pra quem não sabe)... Apenas quebrando o gelo por escrito pessoa, devido a seriedade do assunto, porque pensei não ser mais necessário os situar no tempo e no espaço, porém julgo ser necessário fazer isso mais uma vez .
Bento fez isso motivado por motivos pessoais:
1. Queria impressionar Francisco Nunes Viana;
2. Queria se "vingar" de Pascoal da Silva;
Recapitulando, quando surgiu a Guerra dos Emboabas, o Coronel Francisco do Amaral Gurgel, foi o único que se opôs ao movimento. Tanto é que reprovou a conduta de autoridades locais como: os Sargentos-Mores Felix Gusmão e Pascoal da Silva que imediatamente aderiram ao embate. Devido Pascoal ter vestido a camisa do confronto, Nunes Viana (chefe dos emboabas) o nomeou num primeiro momento como Governador Militar de todo a região gerando certo atrito com o então Capitão-Mór Regente (Francisco)... 1x0.
Num outro momento, Nunes Viana nomeou Bento (primo em segundo grau de Francisco) como um "simples" Sargento-Mór. Vale mencionar que, esse cargo é inferior ao de Mestre de Campo (nova promoção militar de Pascoal da Silva)... 2x0
Essa citação de Heitor Gurgel descreve bem o que talvez tenham sido traços de personalidade de Coutinho, sendo "corajoso, arrogante e sanguinário" considerando o que o fez entrar na história, faz sentido, não?
S. Suannes se refere a Bento e a esse acontecimento quando conta isso "numa campina belíssima havia, ao centro, ao centro dela, uma capão de mato onde estavam acoitadas algumas fôrças planaltinas, resolveu dar combate às mesmas. E o fêz de maneira terrível, com requintes de pervesidade, atraiçoando a confiança que os paulistas nêle e suas promessas depositaram." 2x0∞ (elevado ao infinito).
Após estar ciente da horripilante matança do Capão da Traição, o Coronel Francisco optou por se exonerar do cargo, já que havia conflito de interesses: reconhecia ser legítimo o movimento da guerra (pelo direito dos emboabas também minerarem nas Gerais, já que os planaltinos se opunham isso) e cumprir o seu dever de Capitão-Mór (ressalto que se tivesse continuado no cargo, teria de prender seu amigo e sócio Nunes Viana, envolvido na luta armada). E parando pra pensar, o seu primo Bento não estava com a imagem boa perante a opinião pública daqueles tempos na sociedade local.
Transcrevo aqui uma nota de Heitor Gurgel em sua obra:
"Nota IV - Um historiador apressado, cujo nome não vem à baila, confundiu Francisco do Amaral Gurgel com Bento do Amaral Coutinho e, por isso, deu a Francisco a autoria do sangrento episódio do Capão da Traição. (...) O Coronel Francisco do Amaral Gurgel não tomou parte na chamada Guerra dos Emboabas."

