sábado, 17 de agosto de 2013

A sangrenta Guerra dos Emboabas (e os Amarais)

Os paulistas ficaram conhecidos por ter desbravado as terras brasileiras nas chamadas bandeiras. Numa dessas bandeiras foram descobertas as jazidas de ouro na antiga Capitania de São Vicente, e devido a tal acontecimento, a população da região cresceu bastante por causa da chamada corrida do ouro.
Tudo começou quando uma tropa descia a serra ouro-pretana de Tripui e parou para descansar a beira de um riacho, e um dos integrantes subordinados do tropeiro querendo matar a sede colocou "uma gamela numa ribanceira e sem querer roçou-a pela margem do rio, vendo depois que nela havia uns granitos da côr do aço. Nem êle e nem seus companheiros, aos quais mostrou o achado, souberam conhecer que metal seria aquêle. Descansada, a tropa seguiu seu destino e ao chegar a Taubaté, o mulato vendeu a um comerciante alguns daqueles granitos, sem saber o comprador o que comprava e o vendedor o que vendia. Só mais tarde, é que chegandos os granitos às mãos do Governador Artur de Sá é que se veio a saber que êles era ouro finíssimo". (André João Antonil).
Heitor Gurgel conta que: "Levas e levas contínuas de gente de tôdas as classes e condições, prêtos, índios, mamelucos, curibócas, portuguêses, baianos, fluminenses, mineiros e paulistas deixavam suas terras e, por caminhos ásperos iam caminhando de sol a sol, não raro pelas noites a dentro, movidos pela ambição, com destino às minas gerais dos Cataguás. A essas levas se juntavam religiosos, seculares e clérigos, homens nobres e mulheres de sangue, ricos e pobres. Ante gente de todos os estôfos morais, era de esperar-se o que aconteceu."
Tal descoberta desencadeou uma soma de fatores que por fim resultaram no conflito bélico:
  • O aumento da população em um curto espaço de tempo. A região dos Cataguás, por exemplo, chegou a ter mais de 50 mil habitantes em apenas 10 anos (!), após a descoberta da primeira mina em 1695, que foi o primeiro ano do governo de Artur de Sá Menezes na Capitania Real do Rio de Janeiro;
  • As escavações eram feitas de qualquer jeito (sem técnica), então, os leitos dos rios e ribeiras das região ficavam cheios de detritos, ocasionando focos de mosquitos, que por sua vez aumentavam surtos de doenças tropicais na população da região;
  • A escassez de gêneros alimentícios na região devido o aumento populacional e os preços altos (superfaturados) praticados em tais alimentos. A logística do abastecimento da época (distâncias), a falta de utensílios de mineração, animais de carga e até mesmo mão de obra;
  • E o principal de todos: a rixa que se criou entre paulistas e forasteiros, devido os primeiros se julgarem 'donos da terra' por conta da descoberta que fizeram, portanto, não viam com bons olhos a exploração de quem não era oriundo da região;
  • Não esquecendo a visão da Coroa Portuguesa, que percebia a descoberta das jazidas como um meio de enriquecer e reverter a crise que havia em terras lusas devido as dívidas.
O desprezo para com os estrangeiros era tanto, que estes passaram a ser denominados pelo termo 'emboabas'. Para você que não sabe (nem eu sabia), o vocábulo 'emboaba' vem do tupi-guarani mboab, e significa 'pássaro com pena emplumada'. Os indígenas chamavam os europeus dessa forma, por estes trazerem calças. Logo, emboaba passou a significar também calçudos, pernas vestidas. E os paulistas utilizavam tal termo como uma ironia, devido os 'gringos' e 'turistas (de outros estados)' usarem botas nas pernas, enquanto que eles (filhos da terra) em sua grande maioria andavam descalços.
Vale mencionar que nesse tempo, a maior parte da população paulista era formada por índios e mamelucos, e que estes falavam mais a língua tupi-guarani do quê o português lusitano daquele tempo.
João Ameal comenta que: "de Portugal partia cada vez mais gente o que levou a Côrte a instituir o passaporte obrigatório para as pessoas que se destinavam ao Brasil. Mesmo assim, em 1709, partia de Lisboa uma frota de 97 navios, a maior de todos os tempos". Isso foi um mecanismo para tentar desestimular e/ou barrar a emigração, considerando a história, isso não surtiu efeito, visto que a imigração continuava a todo vapor para as terras de além do Oceano Atlântico (o Brasil).
Gurgel ainda descreve que: "Para os trabalhos de escavação eram preferidos os negros escravos que, quando fortes, valentes e ladinos custavam 300 oitavas de ouro, ao passo que uma negra, boa cozinheira, alcançava 350 oitavas, preço também de um barrilote de vinho verde. Assim, pelos poucos escravos negros que apareciam nas Gerais, levados por seus senhores recém-chegados no Rio de Janeiro ou de Portugal, eram logo oferecidas verdadeiras fortunas, chegando um escravo angolês espadaudo e môço, de propriedade de um mascate a ser comprado por 800 oitavas de ouro. Êsse mesmo mascate deu, no mesmo dia, por uma espiga de milho, para matar a fome, 2 oitavas de ouro e vendeu facas, alviões, foices e pás que trazia por muito mais do que carecia para ter um lucro superior a mil por cento. Acima, porém, do preço pago pelo braço escravo, imprescindível ao trabalho das minas, superiores mesmo ao custo de uma boa enxada ou picareta de ferro e aço sueco o mineiro pagava (e com que satisfação!...) pelo amor, dando por uma 'uma mulata de boas partes' (Os Emboabas de S. Suannes) 800 e mais oitavas de ouro. Mas, o feijão, a carne e o sal, às vezes valiam muito mais... Por ocasião da falta de gêneros alimentícios, êsses artigos de primeira necessidade alcançavam preços inacreditáveis, pois o ouro era o que, então, menos valia..."
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Quanto a família Amaral Gurgel ou Gurgel do Amaral, envolvida com esse fato histórico, segue o primeiro membro que está ligado a esse evento.
Para colocar ordem no local, foi criado o cargo de Capitão-Mór Regente, para o qual foi escolhido o Coronel Francisco do Amaral Gurgel (1665-1721). Diogo se refere a ele como "um dos primeiros moradores do lugar e um dos mais abastados dentre êles".
Vale transcrever para cá um trecho já escrito anteriormente em outra publicação para melhor compreensão:
"Em 6/07/1706, Francisco após buscar D. Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre, foi nomeado por ele como o mais novo Capitão-Mór Regente das Minas Gerais de Ouro Preto. Se não fosse tão rixento e cultivasse tantos inimigos (alguns bem poderosos), o Capitão-Mór teria conseguido pacificar toda a região que lhe coube dirigir, administrar e policiar. Ficou nesse posto até o ano de 1709." E vale mencionar que D. Fernando, foi governador da Capitania Real do Rio de Janeiro entre 1705-1709.
O Coronel Francisco "pacificou o distrito, cobrou religiosamente os quintos de Sua Majestade, administrou o cível e no crime, pôs na cadeia criminosos e ladrões que infestavam a região e organizou o Corpo de Milícias. Não fôssem as rivalidades existentes entre planaltinos e forasteiros, que terminaram na sangrenta Guerra dos Emboabas, o Capitão-Mór Francisco do Amaral Gurgel teria pacificado inteiramente o distrito que lhe coube dirigir, administrar e policiar."

Baseado em pesquisas e na obra de Heitor Gurgel, autor de Uma Família Carioca do Século XVI.

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