sábado, 31 de agosto de 2013

O triste episódio do Capão da Traição (e os Amarais)

Os planaltinos (paulistas) chamavam de emboabas, quase todos os forasteiros, sejam eles fluminenses, baianos, portugueses ou os próprios moradores de regiões vizinhas às Gerais. Eles abriam algumas exceções para: os reinóis e espanhóis casados com mulheres paulistas e os que, empregados de paulistas, nacionais ou estrangeiros, tivessem passado um tempo na Paulicéia ou pertencido a alguma bandeira.
Devido a ambição dos que iam para os Cataguás em busca de ouro, os conflitos passaram a ser resolvidos da forma mais cruel possível: M-O-R-T-E!!!
André João Antonil inclusive se refere aos planaltinos daquele tempo como "gente rústica, desconfiada, muito sensível e acostumada à guerra, faziam pouco escrúpulo de tirar a vida a qualquer qualidade de pessoas, não só a mando de seus amos, mas também por leves agravos e alguns só presumidos."
Houve momentos de tal contexto histórico, em que os paulistas chegaram a não mais entrar em capela onde oficiasse sacerdote reinol, ou ainda, que paulistas passaram a dar o mesmo tratamento de desprezo dispensado aos escravos e candangos para os lusos.
Diogo Vasconcelos comenta que a guerra começou pelo seguinte fútil e ridículo motivo: "- Um paulista havia emprestado uma escopeta a um português muito pobre. Tendo-se perdido ou extraviado a arma, o plebeu procurou o piratiningano sem mais delongas, ofertando-lhe sete oitavas de ouro pela espingarda, que, aliás, era o que havia custado. O filho do Planalto, alegando não ser negociante, exigiu a imediata devolução da escopeta."
Tudo indica que o luso emboaba se sentiu em apuros, e por esse motivo "buscou remédio para seu mal na valiosa proteção de Nunes Viana, então no fastígio" e o mesmo ocorreu com o paulista que "foi à casa do potentado Jerônimo Pedroso de Barros que, como bom paulista que se prezava de ser, não ia à missa dos lusitanos e, desde logo, se pôs à disposição do conterrâneo. Querendo remediar a situação, Nunes Viana procurou o dono da espingarda que se encontrava com amigos no adro da capela do Caeté e pediu-lhe que aceitasse as sete oitavas de ouro pela escopeta perdida. O piratiningano recusou a propositura. Viana, então, pediu-lhe que fôsse à casa dêle e lá entre as 80 espingardas que possuia, escolhesse a que aprouvesse" (S. Suannes).
O portal Mega Curioso comenta algumas expressões latinas, entre elas há uma que se encaixa perfeitamente nessa situação, a qual irei transcrever para cá (se você estiver curioso com as demais, basta acessar em > http://bit.ly/2jtpSTF): Eis um provérbio que era bastante popular na Roma Antiga. A expressão 'auribus teneo lupum' era usada quando a situação era insustentável, e particularmente quando fazer nada ou fazer alguma coisa para resolver um problema era igualmente arriscado. Bizarro, né? Ao pé da letra, (...) significa 'segurando um lobo pelas orelhas'.
Retomando a linha de raciocínio, a Guerra dos Emboabas era uma tragédia anunciada. Muito provavelmente, os dois líderes: Jerônimo Pedroso de Barros (dos paulistas) e Manuel Nunes Viana (dos emboabas), começaram uma sessão de argumentos de defesa e acusação como se estivessem em um comício ou tribunal, até chegarem ao ponto de os nervos chegarem a flor da pele e trocarem desaforos pessoais.
E Heitor Gurgel comenta com riqueza de detalhes o surgimento de tal guerra na seguinte passagem:
"Surgiram então os disse-me-disse, os fuxicos, os boatos e, em pouco, paulistas e emboabas estavam em pé de guerra. E foi à-toa que Borba Gato foi ao Caeté para apaziguar os animos. Dias depois, os paulistas mataram dois escravos de Nunes Viana e depredaram propriedades dos mesmos. Em represália, Nunes Viana e sua gente tiraram a forra, pondo fogo em plantações e nas catas dos paulistas. Era a guerra."
E dessa guerra, o episódio mais sangrento foi o Capão da Traição, que possui tal denominação devido a forma do relevo, cuja aparência é de uma região mais baixa com outras mais altas ao redor, assim bem explicou um dos usuários do site de perguntas Brainly (http://bit.ly/2jnPUdk).
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Depois de toda essa explicação para contextualizar quem lê, por fim serão feitos comentários da relação desse conflito com os Gurgéis e os Amarais.
Heitor Gurgel relata que apesar de haver uma figura de autoridade local, isso era insuficiente. Vale mencionar que foi criado o cargo de Capitão-Mór Regente das Minas Gerais de Ouro Preto, para o qual foi designado o Coronel Francisco do Amaral Gurgel. E isso foi justificado devido ao cenário de conflito de interesses por causa: da cobiça pelo ouro, da fome e da dificuldade de se obter gêneros alimentícios.
André João Antonil inclusive reforça isso na seguinte passagem: "os que iam às Minas tirar ouro dos ribeiros ou por meio de expedientes vários, usavam de tradições lamentáveis e de mortes as mais cruéis, ficando não raro, essas mortes impunes, porquanto nas Minas, a justiça humana não teve ainda tribunal, nem respeito." (...) "nas minas apenas se guardam algumas leis, que pertencem às datas e às repartições dos ribeiros. No mais, não há Ministros, nem Justiças que tratem ou possam tratar dos castigos dos crimes que não são poucos, principalmente dos homicídios e furtos."
O Capão da Traição é um triste episódio dessa guerra. Em poucas palavras, está relacionado ao  Capitão-Mór Bento do Amaral Coutinho (1683-1711) que traiu 300 paulistas (a grande maioria eram índios), após os enganar, encurralar e matar.
 (¡jajaja! > isso é uma risada em espanhol pra quem não sabe)... Apenas quebrando o gelo por escrito pessoa, devido a seriedade do assunto, porque pensei não ser mais necessário os situar no tempo e no espaço, porém julgo ser necessário fazer isso mais uma vez .

Bento fez isso motivado por motivos pessoais:
1. Queria impressionar Francisco Nunes Viana;
2. Queria se "vingar" de Pascoal da Silva;
Recapitulando, quando surgiu a Guerra dos Emboabas, o Coronel Francisco do Amaral Gurgel, foi o único que se opôs ao movimento. Tanto é que reprovou a conduta de autoridades locais como: os Sargentos-Mores Felix Gusmão e Pascoal da Silva que imediatamente aderiram ao embate. Devido Pascoal ter vestido a camisa do confronto, Nunes Viana (chefe dos emboabas) o nomeou num primeiro momento como Governador Militar de todo a região gerando certo atrito com o então Capitão-Mór Regente (Francisco)... 1x0.
Num outro momento, Nunes Viana nomeou Bento (primo em segundo grau de Francisco) como um "simples" Sargento-Mór. Vale mencionar que, esse cargo é inferior ao de Mestre de Campo (nova promoção militar de Pascoal da Silva)... 2x0
Essa citação de Heitor Gurgel descreve bem o que talvez tenham sido traços de personalidade de Coutinho, sendo "corajoso, arrogante e sanguinário" considerando o que o fez entrar na história, faz sentido, não?
S. Suannes se refere a Bento e a esse acontecimento quando conta isso "numa campina belíssima havia, ao centro, ao centro dela, uma capão de mato onde estavam acoitadas algumas fôrças planaltinas, resolveu dar combate às mesmas. E o fêz de maneira terrível, com requintes de pervesidade, atraiçoando a confiança que os paulistas nêle e suas promessas depositaram." 2x0∞ (elevado ao infinito).
Após estar ciente da horripilante matança do Capão da Traição, o Coronel Francisco optou por se exonerar do cargo, já que havia conflito de interesses: reconhecia ser legítimo o movimento da guerra (pelo direito dos emboabas também minerarem nas Gerais, já que os planaltinos se opunham isso) e cumprir o seu dever de Capitão-Mór (ressalto que se tivesse continuado no cargo, teria de prender seu amigo e sócio Nunes Viana, envolvido na luta armada). E parando pra pensar, o seu primo Bento não estava com a imagem boa perante a opinião pública daqueles tempos na sociedade local.
Transcrevo aqui uma nota de Heitor Gurgel em sua obra:
"Nota IV - Um historiador apressado, cujo nome não vem à baila, confundiu Francisco do Amaral Gurgel com Bento do Amaral Coutinho e, por isso, deu a Francisco a autoria do sangrento episódio do Capão da Traição. (...) O Coronel Francisco do Amaral Gurgel não tomou parte na chamada Guerra dos Emboabas."

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