domingo, 10 de março de 2013

Domingas de Arão Amaral

Depois de muitas promessas e penitências feitas por sua mãe para Nossa Senhora das Graças e para Santo Antônio de Lisboa, nascia no Domingo de Ramos de 1584, aquela que viria a ser a matriarca de umas das mais antigas famílias brasileiras (com ramificações na Europa e na África), os Gurgel do Amaral ou Amaral Gurgel. Filha de portugueses residentes no Brasil, afilhada do Coronel Botafogo. A donzela casou um pouco tarde para os padrões da época com um cavalheiro francês (despertando a inveja das moças da cidade).
Mas Domingas (que se chamaria Conceição por causa de uma promessa materna, a Nossa Senhora das Conceição), não precisava fazer muito esforço para chamar a atenção. Era morena como a mãe, de grandes olhos verdes, era baixa, tinha um nariz bem feito, uma boca servida por lábios aveludados, rubros e úmidos, encobrindo dentes fortes e bem alvos (sem contar com os traços que ainda carregava de sua remota ascendência fenícia). Contrariando costumes da época: aprendeu a ler, a contar e a escrever com o Padre Agostinho, um jesuíta.
Aos dezesseis anos, olhava inocentemente a janela de sua casa e percebia que, volta e meia, aquele francês que fora preso na Vila de Cabo Frio por seu padrinho, passava pela sua casa sempre encarando-a. Mas foi durante um leilão que o interesse do estrangeiro pela moça ficou bem evidente. Por ironia do destino, seu pai D. Antônio Diogo do Amaral se interessou por uma quartinha de bom barro, pintada pela mão de índios e queria muito comprá-la. Porém, Toussaint também se interessou por tal peça. Começava então uma disputa por quem daria o lance mais alto.
Percebendo o acontecimento, o Coronel João Botafogo fez uma intervenção na situação ao apresentar o seu protegido forasteiro para a família do seu compadre. Conversas surgem e num momento de distração, Toussaint beliscou o braço da jovem carioca, demonstrando assim suas intenções por meio desta prova de amor (tão na moda naquela centúria). Se antes haviam dúvidas, depois de tal feito, desapareceram.
Meses depois, Domingas subia a Ladeira da Misericórdia carregada numa cadeirinha de cortinas damasco azul claro para então, ser arriada no chão por dois vigorosos angolanos e por fim entrar vestida de noiva na Igreja dos Jesuítas lá no Morro do Castelo (esses lugares não existem mais por culpa da mentalidade carioca de outros tempos) onde se realizaria o seu casamento.
Após o casamento, houve uma noite festiva até a alta madrugada, quando cansaram, os noivos pediram licença dos convidados para se refugiarem na alcova nupcial ao som das palmas e vivas, conforme o costume antigo.
O casal tronco gerou, sete filhos, sendo seis filhas e um varão (organizados por ordem de nascimento):
  1. Maria do Amaral Gurgel (1607-1671);
  2. Francisco do Amaral Gurgel (1610-1654);
  3. Isabel do Amaral Gurgel (1613-1654);
  4. Ângela do Amaral Gurgel (1616-1695);
  5. Méssia do Amaral Gurgel (1617-1687);
  6. Bárbara do Amaral Gurgel (1619-?);
  7. Antônia do Amaral Gurgel (1622-1671);
D. Domingas do Arão Amaral, septuagenária, veio a falecer em 1654 na cidade em que nasceu.

Baseado em pesquisas e na obra de Heitor Gurgel, autor de Uma Família Carioca do Século XVI.

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