terça-feira, 7 de maio de 2013

Ruas de São Sebastião do Rio de Janeiro

"Quantum mutatus ab illo." Aeneis de Publio Virgilio Marone.

Gerson Brasil em História das Ruas do Rio de Janeiro (http://bit.ly/1Dds6ta), conta que em 1590, já existiam as Ruas da Misericórdia (o traçado da rua atual, não é o daquele tempo), da Ajuda (que ia até onde hoje está a Biblioteca Nacional) e do Cotovelo (foi destruída) que terminava na atual Rua de São José, quase em frente à Rua do Carmo. Para facilitar as construções, Salvador de Sá permitiu que os "moradores e funcionários do govêrno, auxiliados por índios mansos, levantassem habitações onde bem lhes conviessem, surgindo aqui e ali, ao gôsto de cada um, casas de taipa, cobertas de telhas ou tijupares tendo por teto fôlhas de palmeiras." Naquela época não havia planejamento urbano no país, então as construções eram livres.
O perímetro urbano de São Sebastião do Rio Janeiro era além da Praia de Piaçaba, já ia pela Praia de Nossa Senhora do Ó até o lugar que teve sucessivamente, os nomes de Lugar do Terreiro da Polé, Praça do Carmo, Terreiro do Paço, Largo do Paço, Praça Pedro II e, por fim Praça 15 de Novembro.
A Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março) tem esse nome por conta das construções que surgiram em seu entorno quase que em linha reta. Por conta da expansão para o interior da mata, surgiu uma abertura que por falta de nome foi nomeada Desvio do Mar.
"... a rua do Ouvidor, tão sorbeba e vaidosa que é, teve sua origem de um desvio..." Memórias da Rua do Ouvidor de Joaquim Manuel de Macedo.
A chamada Rua Desvio do Mar, manteve este nome até o começo da última década do século XVI, quando então passou a ser Rua Aleixo Manuel, pelo fato de nela residirem um português e a sua mulher que construíram a Capela de Nossa Senhora da Conceição no Morro de São Bento, posteriormente entregue aos frades beneditinos, proprietários da sesmaria que ia até à Prainha (atual Praça Mauá).
Vieira Fazenda menciona que entre os Morros de São Bento e do Castelo "cordeou-se, na década de 1600-1610, o Caminho da Praia de Manuel Brito". Os contornos da cidade não iam além do Campo do Rosário, na Rua de São Pedro, hoje desaparecida, uma vez que foi absorvida pela Avenida Presidente Vargas.
Vivaldo Coaracy em O Rio de Janeiro no Século XVII (http://bit.ly/1BwX9OG, e quem diria, está a venda na Saraiva & Siciliano. Ôba!), conta o que talvez tenha sido o começo da urbanização da cidade, isso quando em 1610 a Câmara determinou que "tôda e qualquer pessoa que tivesse casa na frente de rua, a fizesse calçar a sua testada, dentro de seis meses, com quinze palmos de largo, sob pena de multa de 6$000 réis".
O povo daqueles tempos achava ruim ter que morar no morro, uma vez que já não havia mais o perigo de os índios os atacarem. Gastão Cruls expressou em sua obra, o sentimento de inconformação daquela povoação de outrora quando se deparava com o morro "sem ter pela frente a escarpa íngreme e escorradia, nem sempre se encontrava qualquer cousa que se quizesse comprar, das muitas podiam ser adquiridas. Um pouco de farinha, uma peneira ou um abano feito pelos índios. Tudo teria que se procurar na praia, onde já se fazia pequeno comércio com as canoas vindas dos engenhos e das roças visinhas". E foi por conta disso ocorria a mudança para a várzea (a Praia da Piaçaba foi aterrada alguns séculos depois).
São Sebastião do Rio de Janeiro era em 1620 "um grande charco e havia lagoas e brejos por todos os lados" (que já não existem devido 'o pensamento progressista' dos cariocas que não respeitam os traçados da natureza, SIM, isso foi uma crítica). Por causa de todo esse contexto, os habitantes da cidade estavam confinados a "um pequeno quadrilátero irregular cujos vértices eram os Morros do Castelo (foi arrasado), S. Bento, Santo Antônio (boa parte foi desmontada) e Conceição e que era a zona sêca".
Heitor Gurgel conta que haviam duas lagoas, a "do Boqueirão (entre os Morros de Santo Antônio e Santa Tereza, aquêle, hoje, derrubado)" e a Grande, depois denominada de Santo Antônio, a maior de tôdas, eram como que um prolongamento de charcos e alagadiços que iam se pôr em contato com o mar na Rua da Prainha. A Lagoa do Boqueirão foi aterrada com o desmonte do Morro das Mangueiras e se tornou o primeiro parque do país e das Américas, o Passeio Público. Para mais informações acesse o site Rio de Janeiro Aqui (http://bit.ly/1vT8mN0). Quanto ao desmonte do Morro de Santo Antônio, serviu para criar o Parque Brigadeiro Eduardo Gomes (http://bit.ly/1LfVHJX).
A respeito da Lagoa de Santo Antônio, Gastão Cruls explica que por ser muito profunda e extensa "era a preferida pelos índios que nela se banhavam e corriam com suas leves ubás". 
Heitor comenta que "para secar êsses alagadiços e lagoas que se construiu muito mais tarde, uma extensa vala ligando diretamente a Lagoa de Santo Antônio ao mar, na altura da Prainha, como depois, anos mais tarde, construiu-se um cano de pedra, com três palmos de fundo por quatro de largura, ligando a mesma lagoa ao mar, na Praça 15, por não ser suficiente a vala que ia dar na Prainha. Essa vala corria mais ou menos onde hoje é o traçado da Rua Uruguaiana e o cano de pedra deu origem a uma rua chamada do Cano e que é a atual Rua 7 de Setembro.
Termino esse texto, deixando abaixo algumas curiosidades relacionadas a minha família:
  • Foi numa casa da Praia de Manuel Brito, construída de pedra e argamassa feita com cal do Reino e azeite de baleia, bem vistosa e uma das melhores da época que viveram os pais de Domingas de Arão Amaral, e onde ela e seus irmãos nasceram. 
  • E foi na antiquíssima Rua Desvio do Mar que foram morar depois de casados Toussaint Grügel e Domingas, e onde também nasceram seus sete filhos. 
P.S.: O Rio de Janeiro é o quinto dos infernos (me refiro ao clima) que é hoje, muito provavelmente em decorrência das inúmeras mudanças feitas nos últimos séculos pela mentalidade do que foi/é tido como 'civilizado' para os cariocas. Já não existem mais lagoas, pântanos, mangues, charcos, morros e florestas como naquele tempo...

"Planta da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com suas
fortificaçoens" de Jean Massé, 1713.

Baseado em pesquisas e na obra de Heitor Gurgel, autor de Uma Família Carioca do Século XVI.

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