terça-feira, 14 de maio de 2013

Detalhes do casamento de Domingas de Arão do Amaral

O casamento é a união entre um homem e uma mulher pela lei dos homens (civil) e/ou pela lei de Deus. Muitos matrimônios terminam em festas, que por sua vez foram planejadas durante semanas e meses a fio. Se baseando em costumes da época e pesquisas, o autor Heitor Gurgel de Uma Família Carioca do Século XVI, descreveu o casamento da mãe dos Gurgel do Amaral ou Amaral Gurgel, filha do casal luso Antônio Diogo & Michaella.

Domingas, cercada de mucamas e amigas, deixava-se levar pela costureira que lhe experimentava no corpo, para os últimos retoques, o sonhado vestido de noiva. Dentro da casa, a azáfama era grande. Na cozinha, larga e espaçosa, pôsto que de terra batida e telha vã, negras escravas preparavam o jantar festivo. Já estavam prontos, em pratos de barro cozido, os pombos de salsa negra, os patos de piverada, frangões fritos, pernas de porco estofadas em vinho branco, peitos de vitela recheiados com linguiça, leitão assado, galinha à Fernão de Souza, feita com pedaços de carneiro, de toucinho, gemas de ovos e chouriços, um dos mais apreciados pratos da cozinha portuguêsa da época. Além das trutas preparadas a lisbonense, tão do agrado dos gourmets de então e da apreciadíssima muqueca de peixe, dos enormes guaiamús cozidos no próprio casco, como só os índios sabiam preparar, dos salpicões e dos perus de salsa real, havia ainda, em pratarrazes enormes, assados de carne de baleia, de vaca em manguito e à alemoa, tudo regado com bastante môlho de marfim ou do remolado. Um ou outro legume, mas em compensação sobravam as mandiocas, as farinhas d'água, da macaxeira e os beijús de mandioca puba. No aparador, soberba peça de madeira de lei vinda da Bahia, estavam os doces e as frutas. O delicioso pudim real, os fôfos sonhos, os esfarinhentos pães de ló, as compotas caseiras e as frutas da terra, entre as quais, os doces cajús e as pitangas tão apreciadas, e mais as peras e maçãs chegadas do Reino na véspera. Três ou quatro qualidades de queijo, além do afamado queijo da Serra da Estrêla. Entre as bebidas, os vinhos vindos de Lisboa e a rescendente cachaça que fazia ao verdasco séria concorrência. Para a indiada, e mesmo para alguns brancos e curibócas, havia o pertubador cauim.
[...] A noite foi festiva. No amplo terreno que servia de quintal, todo enfeitado com bandeirolas de papel de sêda e tendo o chão atapetado com fôlhas de mangueira, os escravos da casa e os que haviam vindo com os convidados dançavam o lundum acompanhados pelos atabaques, cazás, e agôgôs. Mais adiante, depois da senzala, afastados de todos, os índios da casa se reuniram e festejaram também a seu modo o grande dia, dançando e cantando ao som de seus estranhos instrumentos de percussão, os quelieques e herenchediocas acompanhados das flautas de bambú. Nos dois salões, após a suculenta janta, os pares rodopiavam, animados por um conjunto de violões, guitarras e sanfonas, até a alta madrugada. (...) Se alguém chegasse perto daquela casa onde reinava a alegria e tivesse ouvido para a música, poderia distinguir entre os sons de violões, guitarras e sanfonas, uma melodia nostálgica, dolente, triste como um lamento e, uns outros sons, estrídulos, quase onomatopaicos, destituidos de beleza melódica para ouvidos civilizados. As três raças formadoras do brasileiro, o branco, o prêto e o índio tocavam e dançavam... (páginas 42 e 43).

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