sexta-feira, 31 de maio de 2013

Francisco Gurgel do Amaral = Militar temido = Negociante bem-sucedido = Bad-boy

Muitos séculos já se passaram, e a obscuridade ainda estar a rondar a sepultura deste vulto histórico. Segundo o autor de uma Família Carioca do Século XVI, não foi possível encontrar registros de nascimento, óbito, batismo ou mesmo matrimônio. E sem estes documentos, as imprecisões reinam.
O que diferencia mais esta 'lenda' das lendas, são as muitas menções em documentos da centúria, Códices do Arquivo Nacional, do Conselho Ultramarino e nos Anais da Biblioteca Nacional e da Estadual, sem contar com as menções em obras já consagradas sobre a história do Brasil.

Que rujam os tambores! Senhoras e senhores vos apresento um dos primos do Dr. Cláudio, o Coronel Francisco Gurgel do Amaral (1665-1721). De acordo com a Nobiliarquia Paulistana, Francisco é tido como irmão inteiro de Bento do Amaral da Silva (ás vezes seu irmão assinava assim), marido de Escholástica de Godoy, o que fundou a família na Paulicéia e que é frequentemente confundido com o seu primo Bento do Amaral Coutinho. Acho que acabei desfocando por um instante a filiação de Francisco. Prosseguindo, Pedro Tasques (autor do livro acima citado) ainda menciona que Francisco era irmão do Frei Antônio de Santa Clara, e também das freiras Izidora do Amaral, Maria Josefa do Amaral e Marta do Amaral (professas no Convento de Santa Clara de Lisboa, Portugal) e também do Frei Luiz de Santa Rosa (http://bit.ly/1uzi94E).

Após essa leitura (aos que acompanham meu blog ou que conhecem bem a história desta família), o que se deduz é que Francisco era filho de Domingas do Amaral da Silva, filha de Méssia, portanto bisneto de Toussaint Grugel.
Assim como no caso de seu primo, pouco se sabe sobre a juventude de Francisco, a não ser é claro o que foi registrado nesta fase da sua vida: as suas muitas 'travessuras' na companhia de irmãos, primos e amigos, e que lhe deram má fama. (Parando pra pensar, para os padrões de hoje, Francisco podia ser considerado enquanto moço, um verdadeiro bad boy). Esses atos infratores acabaram por lhe agregar a autoria de alguns delitos, mas a imagem que fazem dele é demasiadamente exagerada.

A crônica policial lista dois importantes momentos de sua trajetória:
•  Em 1685 é incriminado como provável cúmplice no assassinato do Provedor do Erário Real, Pedro de Souza Pereira, o Môço. Mesmo não tendo participação no caso, achou prudente fugir para Inhomerim, na Baixada Fluminense, onde encontrou seu primo, o Dr. Cláudio e amigos deste (Vieira Fazenda). Tempos depois, quando questionado pela saída da cidade, Francisco disse um provérbio árabe: "nas tempestades de areia todos os camelos são iguais" (Anais da Biblioteca Nacional, vol. 13). Pois o crime foi praticado por um de seus consanguíneos, Bento do Amaral da Silva (seu irmão) e outros mais, segundo Vieira Fazenda.
•     Em 1692, ele, seu irmão Bento, o fluminense Luiz Corrêa e "30 índios assaltaram as fazendas de alguns moradores, levando-lhes seus escravos." O Rei D. Pedro II de Portugal mandou prendê-los (Carta Régia 24-11-1692), mas o Governador da Capitania Real do Rio de Janeiro, Luiz César de Meneses não pode, já que foram pra São Paulo (Vieira Fazenda).

Após um período de liberdade de puro Carpe diem (frase de um poema de Quintus Horatius Flaccus), Francisco passa a ter a sua existência atrelada as funções públicas, que coincidem com os momentos que o colocam definitivamente na história do Brasil:

1.    Pelo que parece, em 1700, Francisco já era um minerador e tanto em Ouro Preto, se levada em consideração a passagem: "de vários ribeiros e da negociação com roças, negros e mantimentos, fêz Francisco do Amaral Gurgel mais de cinqüenta arrôbas" conforme Cultura e Opulência do Brasil, André João Antonil (http://bit.ly/15prFf2).

2.    Graças a sua riqueza, chegou a deter o Monopólio da Carne Verde entre o período 1701/06. Perdeu o posto para os paulistas chefiados pelo famoso e não menos invejoso (rs) Anhanguera II, Bartolomeu Bueno da Silva. Apesar de muito insistir nessa "queda de braço", o monopólio foi parar nas mãos do Frei Francisco de Menezes (também conhecido como o Frade Satânico) e de Pascoal da Silva (possível parente de Francisco). Percebendo que perdeu, se refugiou em uma de suas muitas fazendas, a do Bananal, perto de Vila Rica (atual Ouro Preto).

3.    Em 6/07/1706, Francisco após buscar D. Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre, foi nomeado por ele como o mais novo Capitão-Mór Regente das Minas Gerais de Ouro Preto. Se não fosse tão rixento e cultivasse tantos inimigos (alguns bem poderosos), o Capitão-Mór teria conseguido pacificar toda a região que lhe coube dirigir, administrar e policiar. Ficou nesse posto até o ano de 1709 (os detalhes desse episódio serão descritos de forma mais detalhada em algum momento futuro).

4.    Mas isso foi por pouco tempo, logo mais era nomeado Capitão-Mór de São Vicente, em substituição do Capitão-Mór José de Goes Morais. Apesar do ambiente agressivo (os paulistas queriam derrubá-lo), se manteve indiferente até sua exoneração em Maio de 1710, não por conta da oposição e sim em virtude da extinção desta donataria. Consequentemente é tido como o último Capitão-Mór, dos loco-tenentes representantes das donatarias de São Vicente (Os Capitães-Mores Vicentinos, obra de Francisco de Assis Carvalho Franco). Não encontrei uma versão online, apenas uma ficha catalográfica da Biblioteca Nacional de Portugal (http://bit.ly/12UdAEN), espero que vocês tenham mais sorte.

5.    Um mês foi o tempo que ficou sem função pública, pois em 16/06/1710 era nomeado como Capitão-Mór da Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty. Penso que foi o mais benéfico dos seus cargos, pois desde 1702 já possuía fazendas e um importante empório comercial, com muitas tropas e tropeiros que faziam viagens até as Minas Gerais, através da Serra do Facão, levando víveres e trazendo quintos reais. O que lhe rendeu elogios do Rei D. João V de Portugal. Apesar de afastado da região, Francisco ainda explorava uns lavradios auríferos em sua Fazenda do Bananal, o que o fez acumular fortunas sobre fortunas, fornecendo gêneros alimentícios, escravos, fumo, aguardente, pás, picaretas e enxadas aos mineiros, graças ás suas tropas e tropeiros.

6.    Francisco assim como parentes, não era de levar desaforo pra casa, querendo vingar-se das afrontas que sofrera em São Paulo, propôs ao Rei D. João V de Portugal a compra da Capitania de São Vicente por $ 40.000 cruzados, proposta essa que inclusive chegou a ser discutida no Conselho Ultramarino, é o que cita Afonso d'Escragnole Taunay, em História Geral das Bandeiras Paulistas (http://bit.ly/10EXkJD).

7.    Em Setembro de 1710, quando o corsário francês Jean-François Duclerc (?-1711), antes de invadir o Rio de Janeiro, quis desembarcar em Angra dos Reis ou Paraty, Francisco, valente que era se pôs a defender a cidade, trazendo de seus domínios rurais: homens armados, o que lhe valeu em 12 de Dezembro o seguinte elogio tornado público para conhecimento e gratidão do povo pelo Governador da Capitania Real do Rio de Janeiro, Francisco de Castro Morais: "Tendo respeito ao honrado procedimento com que sempre se houve Francisco do Amaral Gurgel, no serviço de Sua Majestade havendo servido nos postos de Sargento-Mór de Ordenanças de São Paulo, Capitão-Mór e Superitendente das Minas Gerais e Provedor dos Defuntos e Ausentes em várias vêzes mandou conduzir por seus escravos os reais quintos de Sua Majestade e em cujas ocupações se houve sempre com muito zêlo e despendeu de sua fazenda e, pela sua pessoa e qualidades se faz digno de maiores emprêgos; e, na ocasião em que esquadra francesa invadiu essa cidade, no dia 19 de Setembro último, o sobredito Francisco do Amaral Gurgel vindo de Paraty, de sua fazenda com 120 escravos armados para defender a cidade de Paraty, ameaçada com o possível desembarque do inimigo, fazendo trincheiras e pondo nelas três peças de artilharia tudo a sua custa, e animando o povo paratiense ante a invasão que parecia iminente e por êle um sujeito capaz e benemérito HEI por bem prover e nomear por especial mercê a Francisco do Amaral Gurgel para o cargo de Coronel com exercício de Capitão-Mór de Paraty, com tôdas as honras, e privilégios comuns a tão alto cargo" (Códice LXXVII, Vol. 21 - Arquivo Nacional).

8.    Um ano depois (1711), Francisco realiza um novo feito. Saia ele de Paraty "com 580 homens armados a sua custa e veiu defender o Rio de Janeiro, já então em poder das aguerridas tropas de Duguay Trouin. Ao chegar, porém, Francisco encontrou a cidade pràticamente tomada pelos franceses e o Governador tão apavorado que, depois de enterrar caixões contendo baixelas e utensílios de ouro e prata, o chamou confiando-lhe os restos da infantaria para com ela proteger a retirada dos que ainda estavam na praça". Tendo conhecimento desse comando, "Duguay Trouin se dirigiu a Francisco perguntando se êle queria tomar a sua conta o ajuste da capitulação da cidade já que o primeiro intermediário, o Vereador Manuel de Souza Coutinho falhara na missão". Tudo isso de acordo com Memórias Históricas do Rio de Janeiro, de Monsenhor Pizarro (http://bit.ly/17SKNHz).

9.    Pra não passar por cima de autoridade, "Francisco mandou perguntar ao Governador, que continuava em Iguaçu, se êle poderia receber tal comissão. Francisco de Morais respondeu dando-lhe permissão para ajustar os têrmos finais da capitulação o que escandalizou de sorte o Mestre de Campo, João de Paiva, que logo começou a queixar, que não era justo que um homem de Paraty, viesse concluir um negócio  que êle havia principiado". Percebendo um conflito de interesses, o Coronel "recusou-se conversar sôbre o ajuste com o inimigo, logo na manhã seguinte porque, mandou êle arrogantemente dizer ao chefe francês: semelhantes ajustes não se costumam fazer debaixo de armas, mas que para isso não faltaria ocasião". Até que o D-Day chegou, já que recebera nova autorização do Governador que lhe mandou dizer que "não duvidava em lhe fazer a vontade em tudo, sem contradição alguma". Prestigiado, ele virou as costas para os adversários para concluir a capitulação da cidade, "enquanto não se entregava o dinheiro foram dados como reféns, o citado Mestre de Campo, João de Paiva e o Juiz de Fora, Luiz Fortes Bustamante de Sá" (Monsenhor Pizarro).

10.    Nos conta Monsenhor Pizarro, que chegando no Rio, Francisco se envolveu em outras batalhas contra os franceses. Na que travou na Rua Direita, a combateu com um punhado de homens, uma guarda avançada do inimigo vencendo-a e fazendo prisioneiros. (Penso eu que foi pra vingar e honrar sua família). Pois dias antes de tal feito, a alguns passos dali "os franceses festejaram ruidosamente com luminárias e outras demonstrações públicas, a morte de Bento do Amaral Coutinho que expirou de armas em punho, combatendo destemerosamente as hostes de Duguay Troin (Vieira Fazenda).

11.    E por mais uma vez, esta família (os Amarais) foram honrados. O Conselho Ultramarino e o próprio Rei de Portugal reconheceram "que um e outro poderiam obrar muito mais se não fosse a inércia do Governador". Francisco recebeu tempos depois , em meados de 1712, uma carta do Conselho Ultramarino em nome de D. João V de Portugal, "agradecendo-lhe a fidelidade, zêlo e valentia que mostrou em defesa da praça, e (que mais valeu a Francisco) perdoando todos os crimes imputados a êle, até aquela data" (Códice LXXVII, Vol. 21 - Arquivo Nacional)
*Esta passagem se refere aos Amarais (Bento e Francisco) e ao Governador da Capitania Real do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho.

11.    Em 29 de Junho de 1712, perdeu o cargo de Capitão-Mór de Paraty para o seu parente Félix Correia do Amaral. Tudo não passou de uma vingança do Governador Antônio de Albuquerque que além de o detestar, "ficara indignado com o perdão real que puzera por terra as devassas que êle mandara levantar sôbre a vida pregressa de Francisco, não só no Rio de Janeiro, como em Minas, Bahia e S. Vicente".
Tendo sido exonerado, Francisco se retirou da vida pública para cuidar de seus negócios e amores é o que consta em, História Antiga das Minas Gerais e Memórias sobre a Capitania de Minas Gerais, obras de Diogo Vasconcelos. O restante da sua vida, não relatarei aqui pois se fazem necessários para construir a biografia de outros membros de minha família.

Baseado em pesquisas e na obra de Heitor Gurgel, autor de Uma Família Carioca do Século XVI.

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