sexta-feira, 10 de maio de 2013

Breve histórico da Ladeira da Misericórdia

Em 1567, era (re)fundada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no Morro do Descanso, referenciando o merecido local de sossego após a vitória definitiva dos portugueses e a reconquista da terra da mão de invasores franceses.
Foi nesse mesmo ano que surgiu o mais antigo logradouro deste município brasileiro: a Ladeira do Descanso, que ficou eternamente conhecida pelo nome atual, quando surgiram as edificações que viriam a compor o chamado Largo da Misericórdia.
A Ladeira da Misericórdia nasceu no topo do Morro do Descanso, posteriormente conhecido como Morro São Januário e por fim (e quem diria que teria um triste fim): Morro do Castelo, pois em seu topo existia a Fortaleza de São Sebastião que parecia um castelo.
Aos poucos o Morro do Castelo ficava sem espaço, porque era uma verdadeira cidadela medieval pelo fato de ser murado. A cidade precisava crescer para além dos limites desses muros devido o aumento populacional.
Foi por causa da necessidade de expansão, que a ladeira tocou a várzea pela primeira vez, dando início a Rua da Misericórdia (antes conhecida como Caminho de Manuel de Brito, porque se estendia até a sesmaria pertencente a este cidadão, numa península que ficou conhecida pelo nome de Praia de Nossa Senhora, depois Prainha).
Em 1617, tanto a rua quanto a ladeira ganharam arruamento em pé-de-moleque (também nome de um doce), antiga técnica para calçar vias públicas. Infelizmente, desde 1922, só restam 40 metros de calçamento, feito com muito suor, sangue e lágrimas de escravos africanos, que andavam descalços, o que tornava ainda mais penoso o labor, coadjuvados por mulas.
Tudo indica que o que restou da Ladeira da Misericórdia, só foi poupado para sustentar as paredes da sua antiga vizinha, a Santa Casa de Misericórdia que forma um conjunto arquitetônico com a Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso (a princípio conhecida como Igreja da Misericórdia).
Muitos pensam que o que sobrou não leva a lugar algum (pelo fato de ter se tornado um trecho sem saída), o que não é verdade, se levado em consideração que ela leva a um passeio daqueles tempos em que por ela subiam e desciam os moradores do Morro do Castelo, em que "o íngreme, desigual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés às duas pobres donas" da obra Esaú e Jacó, lançada em 1904 pelo escritor Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908).
Nos dias de hoje, a ladeira pede misericórdia, pois está abandonada a própria sorte: pois algumas de suas pedras estão soltas, o mato cresce em tamanho ofuscando sua beleza, o lixo nela se acumula, e a noite é frequentada por moradores de ruas que a transformam em banheiro. Mesmo com os muitos protestos em seu nome, as autoridades cariosas pouco parecem se importar com a melancólica e nostálgica ladeira que resistiu ao arrasamento do monte.
Foi por esse aclive/declive que os convidados do casamento de Domingas-Toussaint se puseram a andar, não sem antes passar pela praia mal cheirosa, pisando em poças d'água pútrida para então enfrentar a escorregadia Ladeira da Misericórdia.

Ladeira da Misericórdia, Rio de Janeiro em 1844, pintura de Eduard Hildebrandt.

Baseado em pesquisas em fontes diversas: site do Marcílio (http://bit.ly/1wFkC4r) + matéria do Jornal O Globo (http://glo.bo/1chXoHn) + artigo do site Rio & Cultura (http://bit.ly/1vWlu3W).

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