sábado, 19 de outubro de 2013

A perseguição política dos Amarais

O Dr. Cláudio Gurgel do Amaral também levava jeito para o comércio, tanto é que sempre negociava com o seu primo, o Coronel Francisco do Amaral Gurgel.
A respeito do Coronel Francisco: mesmo perdendo o Monopólio da Carne Verde, e tendo se tornando uma autoridade, ele não abandonou o comércio. Prova disso é que estendeu seu negócio até a Bahia, onde adquiriu várias propriedades (entre elas duas fazendas).
O Governador da Capitania Real do Rio de Janeiro, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho dele não gostava, por isso nomeou nomeou Felix Correia do Amaral para o substituir no cargo de Capitão-Mór de Paraty.
"Nunes Viana e o Coronel Francisco do Amaral Gurgel resolveram entregar-se à prisão, em outubro de 1716" (S. Suannes).
Vale enfatizar, que Manuel Nunes Viana era sócio do Coronel Francisco... E que isso ocorreu (prisão) por causa da perseguição dos seus inimigos. Francisco foi enviado para Lisboa, Portugal... E por lá ficou durante três anos a espera do julgamento, que saiu em 1719, quando retornou para o Brasil após ter sido absolvido. Francisco faleceu muito provavelmente por volta de 1721, após uma de suas viagens à Bahia.
Talvez tenha pesado o seguinte histórico de absolvições no seu julgamento:
  • E isso ocorreu já que o o Conselho concluiu que "se não izenta de gravíssima culpa (ao Governador Antônio Albuquerque) que lhe resulta de não expulsar os franceses, deixando-os estar pacificamente nelas mais de vinte dias, depois de haver chegado àquelas vizinhanças trazendo 6.000 infantes bem armados  e um bom regimento de cavalaria" sob o pretexto de já estar a cidade capitulada, "porque êle (Governador Antônio Albuquerque) não estava obrigado a guardar o pacto que êle não havia feito", e o Conselho havia aconselhado o Rei D. João V de Portugal a "premiar Francisco do Amaral Gurgel por sua valentia e lealdade e a considerar valorosa e heróica a morte de Bento do Amaral Coutinho" (Volume 23 do Arquivo do Conselho Ultramarino). E foi por meio desse reconhecimento que Bento foi redimido pelo triste episódio da Guerra dos Emboabas, o Capão da Traição.
  • Devido a prática de "homicídios, castrações de varões e furtos de escravos", Francisco foi citado pelo Conselho Ultramarino em 1714 para ser preso. No entanto, foi absolvido. Francisco obteve do Rei D. João V de Portugal, a ordem real para que "lhe fôssem devolvidos os bens sequestrados pelo Governador Francisco Távora" que por sua vez, desprezava tanto Francisco que mandou dizer ao Rei que "se êste homem (Francisco) fôsse perdoado novamente, que lhe fôsse mandado (a êle, Governador) sucessor, porque tinha por quase impossível que estando êle (Francisco) naquelas partes (Minas Gerais e Rio de Janeiro) possa alguém governar como Deus e Vossa Majestade mandam" (Códice LXXVII, Vol. 24 - Arquivo Nacional)
  • "(...) eram as tropas que traziam serra abaixo, até ao pôrto, os quintos reais, transporte que concorreu para o bom nome do Coronel Francisco do Amaral Gurgel" E Heitor Gurgel especula que "com tanto dinheiro vindo do Brasil, D. João V da colônia só queria saber e ter boas notícias. - Os quintos aumentaram êste mês.  - Ótimo. - E êsses tão invejados e temidos Gurgéis roubam o erário? - Não. - Então porque castigá-los?..."
Devido a essa proximidade, certa vez, um bispo aconselhou Cláudio a fugir do Rio de Janeiro. O Governador Francisco Xavier de Távora certa vez, escreveu em uma carta para o Rei D. João V de Portugal que tinha aversão por tudo que "cheirasse a Amaral" pois, "só em falar nessa gente (os Gurgéis) o ar fica empestiado" (Códice LXXVIII, Vol. 21, fls., 18 - Arquivo Nacional).
O Governador Francisco Távora detestava tanto a família que chegou ao ponto de aconselhar o Rei "a deportação ou a extinção de Cláudio" (Códice LXXVIII, Vol. 21, fls., 82v - Arquivo Nacional).
Devido a tantas queixas, o Dr. Cláudio foi proibido por ordem real de entrar no Rio de Janeiro, todavia, isso não adiantou, já que vez ou outra estava na sua chácara da Glória (que nos dias de hoje estaria situada se ainda existisse nas proximidades da atual Rua Taylor no Centro do Rio de Janeiro).
Numa das visitas clandestinas de Cláudio, aconteceu algo!
Vieira Fazenda nos conta que "no domingo de Ramos, em abril de 1716, acompanhado de 20 a 30 capangas brancos e negros escravos, invadiu igreja de Campo Grande, onde se achava João Manuel Melo, homem principal do lugar que também estava cercado dos seus satélites e que dias antes tivera uma violenta discussão com José que, no momento, estava desacompanhado, ao passo que João Melo viera cercado de seus facinorosos companheiros. Com a inopinada entrada de José Gurgel na igreja,  trava-se a luta e nela caiu José de Melo banhado em sangue. O celebrante deixa o altar e vem confessar o moribundo, ocasião em que é também atacado e morto a bala. A viúva de João Melo vem à cidade trazendo o cadáver da vítima a fim de reclamar justiça. O Governador da Capitania Real do Rio de Janeiro, Francisco Xavier de Távora declarou réus de morte a José Gurgel do Amaral e a um tal de Pacheco, lugar tenente de Gurgel e publica um bando prometendo grandes recompensas a quem os trouxesse vivos ou mortos."
Ao que tudo indica o filho do Padre Cláudio já tinha um histórico ruim se considerada essa passagem "(...) e dos excessos de seu filho José (...)" (Códice LXXVIII, Vol. 21, fls., 86 - Arquivo Nacional)
Não contente, Távora "mandou arrazar a casa do padre Cláudio onde julgava estarem acoitados os mandatários do horroroso e sacrílego atentado."
José foi preso dois anos depois em Vila Rica por requisição do Santo Ofício. Isso aconteceu quando a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro era governada pelo 3º Conde de Assumar (D. Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos). De lá foi levado para o Rio de Janeiro, para em seguida ser transferido para a Bahia, onde foi julgado e considerado culpado, tendo sido degolado num cadafalso em 1722.
José não escaparia de sua sentença, ainda que tenha sido membro de rica e influente família, já que o crime foi cometido em uma igreja.

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